segunda-feira, 20 de abril de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial

por Rogério Bastos
@rogeriopbastos

UMA CAPITANIA MARCADA PELA GUERRA

         E assim, ao longo dos meses, vai o viajante francês registrando com fidelidade os usos e costumes da Capitania. Da maior importância são suas observações de ordem econômica, falando sobre a produtividade dos campos, a renda das atividades pastoris, o detalhamento da exportação e importação. Praticamente em toda a Capitania escuta queixas dos agricultores por causa da peste ferrugem, que, de uns anos a essa parte, vem dizimando os trigais. Parece-lhe ser, esse, um problema insolúvel, pois as sementes já vêm contaminadas por essa moléstia e os agricultores não dispõem de meios para substituí-las por outras, sadias.

           E dizer que a Capitania já exportara trigo até para os Estados Unidos!
Um outro assunto a que Saint-Hilaire se refere continuadamente é o aspecto demasiado militar do Rio Grande do Sul, aqui gerando uma sociedade castrense.
"Quando um dos estados europeus entra em guerra, todas as suas províncias fornecem soldados e, por conseguinte, se a nação se torna belicosa, o é em sua totalidade. No Brasil, tal não acontece. A fronteira meridional há muito tempo goza apenas curtos intervalos de paz, mas, salvo algumas tropas vindas de São Paulo e Santa Catarina, todos os soldados que combateram a Espanha são naturais da própria Capitania. Nenhum recrutamento foi feito nas províncias mediterrâneas e setentrionais. Disso resulta que, enquanto os habitantes desta Capitania se tornam completamente militarizados — dotados de um sentimento nacional que só a guerra faz nascer —, os povos das outras capitanias caem pouco a pouco na inércia "Em geral, os homens daqui são extremamente corajosos; contam-se deles milhares de feitos que demonstram sua intrepidez... Estão sempre dispostos às mais árduas lutas, mas ao mesmo tempo é difícil sujeitá-los a uma disciplina regular. Para guerrear, deixam sem pesar algum suas famílias, mas, após a vitória, procuram retornar aos lares. Nunca desertam pela cobardia, mas o fazem frequentemente quando os deixam inativos. Quando, antes da batalha de Taquarembó, o Conde da Figueira convocou os habitantes, foram os desertores que em 'maioria atenderam ao chamado. Apresentaram-se não somente porque viram o País ameaçado, mas ainda porque o conde prometera retorná-los aos lares logo fosse o inimigo vencido.

       "As tropas estacionadas na fronteira são em número de três mil homens, compostos de milicianos da região e de uma legião de paulistas. O soldo desses homens está atrasado há vinte e sete meses, e há três anos que eles vivem unicamente de carne assada, sem pão, sem farinha e sem sal. A ração de cada homem é de quatro libras de carne por dia".

         "Tenho por vizinho, em Porto Alegre, um comissário de guerra do velho exército português, para aqui vindo a fim de organizar o serviço de víveres destinados às tropas. Anda a braços com inúmeros obstáculos, devido à desonestidade dos chefes militares, acostumados a tirar proveito da desordem até agora reinante. Parece que não existe nenhuma escrita. Os oficiais requisitam gado dos estancieiros e dão vales que deveriam ser pagos pela Junta da Fazenda Real. Durante algum tempo os pagamentos foram feitos com pontualidade, mas atualmente estão suspensos por falta de verba".

      "Entre o Acampamento de Santa Maria e a estância de Restinga Seca, meu hospedeiro queixou-se muito dos abusos de que são vítimas. Muitas vezes seus cavalos são roubados, pelos oficiais, e cortam as pontas das orelhas, sinal de propriedade real. Mesmo quando requisitados, não se observa regra alguma nas requisições, tudo se faz arbitrariamente. Há algum tempo haviam levado muitos bois daquele distrito para Capela de Alegrete e Belém e acharam um excelente meio de evitar reclamações dos proprietários: não se lhes dar recibos. Meu hospedeiro esperava providências da Corte".

     "Não existe ainda um exército brasileiro, mas todas as capitanias têm suas tropas particulares, que não se entendem com uma direção comum e nem se compõem de um só conjunto. Há sérios inconvenientes nesse sistema militar. Como os corpos dependentes desta Capitania são quase inteiramente compostos de homens da região, tendo a guerra necessidade do grandes verbas e dando lugar a grandes fortunas, formou-se aqui uma espécie de aristocracia de família, embaraçosa para os capitães-generais e perigosa para a paz dos cidadãos".

       "As populações ficam expostas a vexames e rapinagens dos chefes e subalternos.  Entretanto são raros os que se queixam, "Pode-se dizer, com segurança que os franceses não suportariam, sem revolta, a centésima parte do que  aguentam, com tanta paciência, os habitantes da Capitania do Rio Grande do Sul”.

ECOS DA REVOLUÇÃO LIBERAL

       Enquanto Saint-Hilaire viajava por estas bandas, ocorrera no Porto a rebelião burguesa. Os insurretos pretendiam o retorno de D. João VI para Lisboa e a recondução do Brasil ao estado colonial. A 4 de outubro de 1820 entravam em Lisboa. Aboliram a regência, exigiram a convocação das Cortes e organizaram uma junta Provisória, incumbida de elaborar uma constituição liberal.

          No Brasil, as primeiras cidades que tiveram notícia da revolução foram Belém e Salvador. Em janeiro de 1821, a capita! do Pará depunha o governo regional e nomeava uma Junta Provisória. Dias depois o capitão-general da Bahia recusava-se a assumir a presidência da junta local e velejava para o Rio de Janeiro; houve um começo de conflito, com vários mortos e feridos, em face da reação do Marechal Felisberto Caldeira Brant Pontes (depois Marquês de Barbacena); mas ao final firmava-se a rebelião constitucionalista. Com a pressão também no Rio, D. João VI terminou admitindo a Constituição liberal para todos os seus domínios em 26 de fevereiro, os príncipes D. Pedro e D. Miguel juravam a sua aplicação, sob frenéticas aclamações.

          Na Capitania do Rio Grande do Sul, o Conde da Figueira está ausente da capital e essa circunstância facilitou a aclamação de um governo trino interino, constituído pelo General Manuel Marques de Sousa como presidente, pelo ouvidor Doutor Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro e pelo vereador mais idoso de Porto Alegre, Senhor José Rodrigues Ferreira.

           Saint-Hilaire encontrava-se em Rio Pardo, retornando à capital, quando foi informado de que haviam sido depostos o capitão-general em Porto Alegre e seu anfitrião o Sargento-Mor Mateus da Cunha Teles em Rio Grande. Tema para mais uma "reportagem" em seu diário de viagem:

     "A pequena insurreição ocorrida em Porto Alegre não foi obra do povo e sim de tropas excitadas pelos negociantes. Parece certo que tudo tenha passado em ordem, sem derrame de uma só gota de sangue. Este povo faz revoluções com uma sabedoria que não canso de admirar, mas cujas causas são fáceis de conhecer. Acostumado a uma cega submissão, este povo deve, naturalmente, conservar ainda respeito pela autoridade, mesmo quando se revolta contra ela. A amizade que os brasileiros têm pelo soberano é ainda uma das causas que, pelo menos durante algum tempo, os preservará de excessos".

     "Da revolução que vem de se operar é interessante notar estar todo mundo encantado com a Constituição, dela esperando grandes benefícios. Mas a maioria dos que esperam tanta felicidade não sabem sequer o que seja uma Constituição."

           Numa outra passagem de seu diário no Rio Grande do Sul, o arguto viajante francês parecia entrar nos domínios da futurologia:

     "Não sei o que se passa neste momento em Portugal, com o soberano D. João a caminho de Lisboa. Mas se ele e seus filhos não forem atilados, o Brasil será em breve perdido pela Casa de Bragança, e suas capitanias, como as colônias espanholas, tornar-se-ão teatro de guerras civis. O temor de tornar ao domínio português levará os brasileiros à revolta, ou ao menos servirá de pretexto para isso. E como a obediência que as diversas províncias do Brasil prestam ao soberano é o único laço que as une, é evidente que elas se separarão quando tal laço deixar de existir. Sem falar do Pará e de Pernambuco, as capitanias de Minas e do Rio Grande, já menos distanciadas, diferem mais entre si que a França da Inglaterra. Como poderão os habitantes, abandonados a si próprios, entenderem-se e cooperar para a formação de um Estado único?..."

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial

por Rogério Bastos
@rogeriopbastos


NO LITORAL SUL

            Em prosseguimento à cruzada pelo Litoral Norte (Palmares, São Simão, Mostardas e lagoa do Peixe), a comitiva do Conde da Figueira hospeda-se na freguesia do Estreito, da qual depende o Norte, "que é o porto da vila de São Pedro". A aldeia do Estreito era outrora mais a leste, mas, como as casas foram soterradas pelos turbilhões de areia que o vento atira das margens do mar, mudaram as habitações para onde se encontram no momento, "onde, entretanto, terão em breve a mesma sorte". A desolada paróquia se estende por 19 léguas, até a extremidade do istmo, e dois terços de sua população compõem-se de escravos, ligados à atividade do porto do Norte.

           Em São Pedro (Rio Grande), que é uma vila com cerca de duas mil almas, a comitiva do Conde da Figueira se acomoda na grande residência para hóspedes do Sargento-Mor Mateus da Cunha Teles. "Este é natural de Açores, fez fortuna neste país e associou-se a João Rodrigues para a arrecadação dos impostos sobre couros. É quem recebe todos os oficiais que vão a Montevidéu e hospedou mesmo, em sua casa, durante quarenta dias, todo o Estado-Maior do Barão de Laguna (General Lecor)."

           Saint-Hilaire participa de um novo baile, onde encontra homens e mulheres muito bem trajados. "Eram cerca de sessenta mulheres. Usavam vestidos de seda branca, sapatos de cetim e meias de seda; jovens e velhas traziam a cabeça descoberta, os cabelos armados por uma travessa e enfeitados com flores artificiais. Achavam-se assentadas ao redor do salão em cadeiras colocadas em várias linhas. Os homens, em muito menor número, estavam de pé. Era quase preciso obrigar os homens a tirar as senhoras para dançar e, excetuado o conde, ninguém conversava com o elemento feminino.

           Também participa de mais um banquete, servido com luxo, e deixa enfático registro sobre o hábito de erguer brindes e louvações à saúde uns dos outros: "Após a sobremesa serviram-nos café e licores. Durante o jantar foram trocados vários brindes, repetidos agora frente aos licores. A reunião prolongou-se até alta noite e a maior parte dos convivas retiraram-se bastante tocados pelas bebidas. Os portugueses e brasileiros usam beber o vinho puro e nos grandes jantares a praxe dos brindes leva-os a libações demasiadas".

Como não poderia deixar de ser, uma referência à barra diabólica:
          "A barra do Rio Grande apresenta uma notável irregularidade — é que não fica sempre no mesmo lugar. Há vinte anos era mais setentrional que a atual, mas as areias obstruindo-a pouco a pouco tornaram-na apenas transponível às pirogas".

            "Antes da guerra que envolveu o Prata, porque a barra é muito perigosa e porque o charque dessas cercanias é inferior ao de Buenos Aires e Montevidéu, era nesses portos que mais a procuravam. Mas depois da guerra Rio Grande tornou-se centro desse comércio e por isso um importante porto para o Brasil."

Uma referência explícita à solidão:

           "Nada se iguala à tristeza destes lugares. De um lado o oceano a rugir, e do outro o rio. O terreno, extremamente chato e quase ao mesmo nível do mar, não passa de branquicentos areais. Destroços de embarcações, semienterrados na areia, lembram terríveis desastres. O refluxo das águas do rio, ocasionado pelo mar, e a falta de profundidade são as causas das dificuldades que a barra apresenta à navegação e dos naufrágios frequentes ali registrados".

            "Para evitar naufrágios, um homem, continuamente encarregado de sondar a barra, por sinais, informa às embarcações se a quantidade d’água, que varia sem cessar, lhes permite a entrada. Esse prático recebe 10 mil-réis de cada embarcação que sai ou entra".

           "Embarcações denominadas catraias, movidas a vela ou a remo, fazem o transporte entre Rio Grande e Norte. Os moradores da região distinguem esses lugares simplesmente pelos nomes de Sul e Norte, mas a aldeia do Norte chama-se propriamente São José do Norte. Sob todos os pontos de vista ela parece ter sido muito pouco favorecida pelos poderes públicos".

           "Em São Pedro do Sul somente podem ancorar iates. Mas é em São Pedro que existe a Alfândega e é preciso conduzir para lá, por meio de iates, todas as mercadorias que são descarregadas em Norte, mesmo as destinadas ao comércio desta cidade. É evidente que esses transportes são favoráveis ao contrabando e que eles têm o inconveniente de majorar as despesas e aumentar os riscos. Entretanto, como o centro do comércio do sul da Capitania se achava há muito localizado em São Pedro e como os negociantes mais ricos da região aí têm suas residências e seus armazéns, tendo a cidade sido dotada de uma sede de Administração, é claro que não se podia priva-la bruscamente dos privilégios usufruídos, embora em prejuízo dos interesses gerais".

           "É sede de uma paróquia e residência de um juiz de fora (nomeado há menos de três anos). Há uma escola nacional de Latim, aberta em 2 de outubro de 1820. Compõe-se a vila de seis ruas muito desiguais. A mais comprida, denominada rua da Praia, é dotada de belas casas e mela se vêem quase todas as lojas e vendas, bem sortidas".

           "Entre os homens de Rio Grande, todos negociantes, encontrei quase a mesma frieza e os modos desdenhosos dos habitantes do Rio de Janeiro. São em parte constituídos de europeus nascidos em uma classe inferior e que não receberam educação alguma. Começam como caixeiros de lojas e passam depois a negociar por conta própria. Como os lucros do comércio neste país são avultados, eles não tardam a adquirir fortuna que jamais alcançariam em suas pátrias respectivas. Inflam-se de orgulho na progressão da riqueza".

         "Aqui o pão é menos caro e mais abundante que em outras regiões do Brasil devido à produção local do trigo. Em compensação a lenha é cara por causa da falta de matas nos arredores. A que se queima aqui vem do rio Camaquã".

         "O vigário informou-me que o valor das mercadorias exportadas da província durante o último ano subia a 4 milhões de cruzados".

         "Tal exportação consiste principalmente em carne-seca, couros e trigo; exportam-se também crinas e chifres de boi".

         "Em 1818 a quantidade de carne-seca exportada para Cuba e Estados Unidos chegava a 100 mil arrobas, há muito tempo taxando-se em 200 réis o imposto de cada arroba".

         "Mas no ano passado taxaram em 600 réis e a exportação desceu a 40 mil arrobas".

         "Espera-se seja ainda menor neste ano."

          Saint-Hilaire despede-se da vila de Rio Grande e — já apartado da comitiva do Conde da Figueira — segue para Montevidéu, através das verdes solidões do Taim e Chuí. Nesse percurso ele se refere à uniformidade do terreno, às pouquíssimas habitações, ao grande número de bovinos, ovinos, cavalos e jumentos pastando livremente. Descreve o processo de debulhar o trigo, a pata de cavalo, nas eiras circulares. Ao encontrar os primeiros espanhóis, descreve um certo complemento do traje: "Trazem o chiripá, feito do mesmo tecido dos ponchos, e que é uma espécie de cinto que desce até quase aos joelhos, à guisa de uma pequena saia". Numa estância perto do Chuí, o proprietário estava ausente mas sua esposa desempenhou as honras da casa. "Todas as mulheres que tenho encontrado, de Rio Grande para cá, têm conversado comigo, proporcionando-me gentilezas, e tenho observado que em geral possuem melhor bom senso que os próprios maridos." Passando à outra margem do Chuí, chega ao destacamento de guerrilhas acantonado no serro de São Miguel. "Os soldados aqui acantonados estão quase todos, atualmente, em gozo de licença. Pertencem a corpos de voluntários formados no correr da guerra atual pelo estancieiro Bento Gonçalves. Segundo informes que obtive, esse homem reunira sob seu comando uma dúzia de desertores, sendo depois reconhecido de utilidade pelos chefes militares, e alistara posteriormente um número considerável de voluntários."

NA CAMPANHA

      Com sua carreta, criados e um guia (miliciano da guarda de Quaraí), Saint-Hilaire subiu da Banda Oriental. "Quando eu estava em Belém (no rincão de Arapeí) havia dois caminhos a seguir. Um, passando pela povoação chamada Capela do Alegrete, e outro, o que adotei, marginando o rio Uruguai". Ele tornaria a se referir a essa Capela quando chegasse a Santa Maria (na Região Central): "Os produtos da lavoura local são consumidos aqui mesmo, mas pequenas quantidades são remetidas à Capela de Alegrete, onde os proprietários, tendo quase os mesmos hábitos dos gauchos, ainda não se dedicam à agricultura".

      Logo à entrada da deserta Campanha sul-rio-grandense, perderam-se ("não há nenhum caminho traçado") e o vaqueano não conseguia atinar com o rumo do destacamento de Santa Ana, seu primeiro objetivo. Depois de infrutíferas buscas, o vaqueano e o criado Joaquim Neves voltaram à guarda de Quaraí, para que o alferes comandante fornecesse um outro cicerone mais habilitado.

Não havia viva alma na planície. Mas sobravam bandos de avestruzes e veados ("hoje pudemos contar trinta veados em um só bando dos vários encontrados").

       Manadas de cavalos selvagens ("fugiram oito dos nossos cavalos, foram encontrados no meio de uma manada selvagem, José Mariano conseguiu pegar quatro deles"). E, por várias vezes, registra-se a presença de tigres ("Matias veio dizer-nos ter visto quatro tigres, dois grandes e dois pequenos, os quais estavam devorando o melhor dos meus cavalos").

      Chegam por fim à estância do alferes comandante da guarda de Santa Ana. Não encontravam a guarda porque fora mudada para duas léguas além. "Há dez dias eu não via casas nem outras pessoas além de meus criados e vaqueanos. Tive grande alegria ao ver por fim alguns ranchos."A estância se compõe de míseros ranchos, na maioria ocupados por famílias indígenas emigradas de Japeju". "Os estancieiros desta região, não tendo escravos, aproveitam a imigração dos índios para conseguir alguns que possam servir de peões. Os guaranis montam bem, têm prazer nisso, e muitos sabem amansar cavalos."

      Não foi agradável a impressão deixada pela estância e seu proprietário. "Eis um homem que apenas se nutre de carne, mora em mísero rancho, não tem outro prazer além do fumo e do mate, e é oficial de milícia. Mostra-se muito satisfeito; mas é de se esperar que uma tal existência deva reconduzir necessariamente à barbárie um povo tão resignado. Limitar suas habilidades a saber montar a cavalo, e seus costumes a comer carne, é reduzi-lo à condição de indígena e distanciá-lo da civilização, que, nos fazendo conhecer uma multidão de prazeres, nos força a trabalhar, a exercer nossa inteligência para conquistá-los e por isso a aperfeiçoar-nos, pois é unicamente pelo exercício de nossa inteligência que nos aperfeiçoamos. Sou tentado a acreditar que esse homem, apesar de ser branco, pertence aos habitantes desta região que têm costumes semelhantes aos gauchos, homens de maus costumes que perambulam pelas fronteiras."

      No Rincão da Cruz, vê um rodeio. O gado estava em repouso, cercado de peões. O terreno perdera o pasto, "o que não é para se admirar, pois é sempre no mesmo local que se reúne o gado". As pastagens são excelentes. Os animais, grandes e de boa raça.

       Chega por fim a um autêntico oásis: a estância de São Donato, pertencente ao Marechal Chagas. Cinco léguas de campo, seis mil bovinos, duzentos cavalos. Atendida por um capataz e dez peões.

      "Fui bem acolhido pelo capataz, que me ofereceu pêssegos, figos e melancias. De todas as regiões por mim percorridas até agora, na América, não encontrei outra em que os produtos europeus produzissem tão bem como aqui."


quarta-feira, 1 de abril de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial


por Rogério Bastos
@rogeriopbastos

NAS   MISSÕES
      Saint-Hilaire estivera em Montevidéu, percorrera a Banda Oriental, reentrara na Capitania pela fronteira de Quaraí e, ultrapassando o rio Ibicuí, já estava no território missioneiro. Em São Borja, visita a igreja, "e a grandiosidade deste edifício, semidestruído, causou-me profundo sentimento de surpresa e de respeito". O Comandante Chagas Santos havia sido recentemente substituído pelo Coronel Paulet, "homem sensato, inteligente e de nobres sentimentos". Percorre as semiabandonadas cidades de São Nicolau ("achava-se já em deplorável estado de decadência quando os gauchos espanhóis ali entraram, em abril de 1819, e acabaram de destruí-la"), São Luís ("não há senão trezentos habitantes, todos velhos, mulheres e crianças"), São Lourenço ("apenas duzentos indivíduos sujos, mal vestidos, tristes e sonsos, pois os índios são como crianças: alegres e francos quando tratados com carinho, e melancólicos e aborrecidos quando tratados rudemente"), São Miguel ("a menos pobre das aldeias, possuindo uma considerável plantação de mate e importante estância onde são marcados três mil animais cada ano; seus habitantes são bem nutridos, bem vestidos e tratados carinhosamente por seu administrador"), São João ("as terras daqui, como é notório nas de todas as Missões, são excelentes e produzem igualmente trigo, mandioca, milho, algodão, feijão, favas" e toda espécie de legumes") e Santo Ângelo ("a população não vai além de oitenta pessoas, os homens agora ocupam-se em fazer erva-mate e são as mulheres que cuidam das plantações").

       Só encontrava velhos, mulheres e crianças, .porque todos os jovens haviam sido requisitados para o Regimento de Guaranis, sediado em São Borja. "É extremamente necessário diminuir o aspecto militar desta província se não a querem destruir completamente."

       Seus criados e o vaqueano (guia) brincam e dançam com as índias. Ele encontra um grupo delas lavando roupa à beira do rio Camaquã: não se envergonham de estar nuas e continuam tranquilamente naquela atividade. Pelo que tem ouvido, Saint-Hílaire chega à conclusão de que as nativas "nasceram só para a perdição da nossa raça". "O asseio é uma das qualidades que me parecem distinguir as mulheres guaranis. São frequentemente andrajosas, porém limpas. Sua vestimenta consiste apenas numa camisa e um vestido de algodão; seus cabelos são muito compridos, trazem-nos enrolados atrás da cabeça e quando vão à igreja usam um véu branco. Não sei se é o hábito de ver índias que vai fazendo desaparecer a meus olhos qualquer coisa da feiura delas, mas parece-me de fato existir entre essas mulheres algo de agradável, em seu sorriso infantil."

       Difícil encontrar um miliciano que não se faça acompanhar de uma índia, mesmo em diligências como a da captura de um negro que cometera desatinos do outro lado do rio Uruguai. "Se este homem branco, natural de Santa Catarina, não tivesse emigrado para aqui, nunca teria adotado essa prática de se fazer seguir por sua índia, mas, pela convivência com os guaranis, acabou por lhes imitar os costumes. Quase todos os milicianos são assim amasiados a índias. Mas essas misturas farão a Capitania do Rio Grande perder a sua maior vantagem — a de possuir uma população sem mescla. Os filhos de pais brancos e índias guaranis não terão a docilidade que é virtude desse povo e, criados por índias ou abandonados a si mesmos, terão todos os vícios dos índios e dos brancos."

     Quando de sua estada em São Borja, delicia-se com a musicalidade dos guaranis. "Fui hoje à missa, durante a qual alguns meninos cantaram árias portuguesas, com voz muito boa e muita afinação." "A banda do Regimento de Guaranis executou o hino do regimento, com muito gosto e segurança. Os jesuítas serviam-se da música para abrandar os costumes dos nativos e para cativá-los. Como os índios só ouviam o som dos instrumentos nas cerimónias religiosas, logo tomaram a música como parte essencial do culto divino, tornando-se cristãos tanto quanto podiam ser, pois eram apaixonados pelos instrumentos musicais. Após o desaparecimento dos jesuítas, o amor à música persistiu; e a aprendizagem da música tornou os guaranis também soldados, como outrora os fizera cristãos."

     Troca opiniões, longamente, com o Coronel Paulet a respeito da situação dos guaranis. "Disse-me o Senhor Paulet que o sistema jesuítico formava um todo do qual não é possível que se conservem umas partes suprimindo-se outras. Era apoiado sobre bases não mais existentes. Tais bases eram as poucas ideias que os índios tinham do resto do mundo, sua separação de todos os brancos que não pertencessem à ordem dos jesuítas. Mas hoje eles sabem que o mundo não se limita às suas aldeias. Contrariados, nada os impede de fugirem. E um grande número deles, dispersando-se já pela Capitania, constitui forte exemplo a ser seguido."

      Saint-Hilaire confessa não saber como remediar a situação. "É bem verdade que no estado atual o índio exige pouco conforto. Podendo dividir com uma companheira seu rancho mal construído, vendo um pedaço de carne suspenso ao teto e tendo sua cuia cheia de erva-mate, será mais feliz do que o maior potentado branco, cercado de aduladores e seduções. Todavia, esses escassos confortos são suficientes para levá-lo à desaparição, porque, para mitigar sua fome, precisará trabalhar, e terá de se submeter à opressão." "A saída dos índios das Missões corresponde à entrada de novos brancos. Os índios serão em parte renovados pela chegada de europeus, de paulistas ou mineiros, sendo possível o desaparecimento dos guaranis ao fim de uma ou duas gerações."

                                 

      Aliás, os paulistas já estão chegando lá. Como tropeiros de cavalos e mulas. "Vão regressar às suas terras no próximo mês de setembro, pois é nessa época que os pastos se apresentam melhores no sertão, facilitando a condução dos animais adquiridos." Ou como o chacreiro Chico Penteado, "produzindo abundantemente o trigo, milho, algodão, feijão, arroz, amendoim, mandioca, melancia, abóbora, melão e todos os frutos europeus". "Mas o excessivo custo das mercadorias concorre para arruinar os agricultores. Pois, enquanto levam-lhes o produto de seus trabalhos, são eles obrigados a pagar suas roupas e seus confortos a preços exorbitantes. Os objetos mais baratos custam mais 100% que em Porto Alegre, havendo alguns cuja diferença sobe a 200 e 300%."

    "Pretende o Coronel Paulet estabelecer um correio entre Missões e Porto Alegre."

quinta-feira, 26 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial


por Rogério Bastos
@rogeriopbastos

NA REGIÃO  METROPOLITANA
O arraial de Viamão, mais conhecido pelo nome de Capela, entrou em quase completo abandono desde a fundação de Porto Alegre, melhor situada sob o ponto de vista comercial. No entanto, desde a cidade de São Paulo Saint-Hilaire não havia encontrado uma igreja comparável à da localidade, bem conservada, extremamente asseada e ornamentada com bom gosto.
As imediações de Porto Alegre fazem-no lembrar o sul da Europa e tudo quanto ele tem de mais encantador. A cidade, situada em agradável posição numa pequena península formada por uma colina que se projeta sobre o Guaíba, conta com uma população de dez a doze mil almas. O porto dá calado para sumacas, brigues e galeras de três mastros. Ele conta cerca de trinta embarcações atracadas, mas o informam de que frequentemente esse número se eleva a cinquenta. A rua da Praia, comercial, é muito movimentada, com gente a pé e a cavalo, marinheiros e muitos negros carregando volumes diversos. Próximo ao cais fica o mercado, em que se vendem laranjas, amendoim, carne-seca, lenha, hortaliças e, nessa época do ano, pinhões. Mais uma vez Saint-Hilaire comenta que aqui as mulheres não se escondem, e acrescenta que, embora não havendo tanta vida social como nas cidades europeias (não há nenhum clube), não resta dúvida haver muito mais que nas outras cidades do Brasil. Vai a um pequeno baile, em residência particular, onde depara com cerca de quarenta pessoas entre homens e mulheres:
"Ainda não tinha visto no Brasil uma reunião semelhante. No interior as mulheres se escondem e não passam de primeiras escravas da casa, ao passo que os homens não têm mínima Ideia dos prazeres que se podem usufruir decentemente. Aqui, dançaram-se valsas, contradanças e bailados espanhóis, algumas senhoras tocaram piano, outras cantaram com muita arte acompanhadas ao bandolim, e a festa terminou com pequenos jogos de salão. Encontrei modos distintos em todos. As senhoras falam desembaraçadamente com os homens, e estes cercam-nas de gentileza — sem contudo demonstrarem empenho de agradar, qualidade esta quase exclusiva do francês”.





NA REGIÃO CENTRAL
Saint-Hilaire, com sua carreta e seus criados, vinha da região das Missões e foi consequentemente pelo oeste — pela íngreme serra de São Martinho — que entrou na Região Central. Em Toropi-Grande encontra um velho índio que sabe ler e escrever, fala bem o Português, anda bem vestido, é muito honrado, goza de certa abastança, possui uma estância, cavalos e gado, conduz seus negócios com método e casou suas filhas com homens brancos. (Debret também registraria em aquarela um desses estancieiros índios.)
O Acampamento de Santa Maria, habitado por comerciantes que fornecem fumo, aguardente e outras mercadorias, conta com cerca de trinta casas e com uma capela dependente da paróquia de São João da Cachoeira.
Cachoeira é, efetivamente, a primeira povoação que se encontra na estrada que vem das Missões. A essa altura Saint-Hilaire se dá conta de que vinha concluindo uma viagem de quase 600 léguas por uma região sulcada de rios e, inacreditavelmente, não encontrara sequer uma ponte.
A vila de Rio Pardo é inteiramente nova, tendo sido substituídas as irregulares palhoças que de início haviam caracterizado a localidade. Várias casas grandes e bem construídas, sacadas envidraçadas, a rua principal com largo trecho calçado. Produtos agrícolas fornecidos pelas freguesias de Encruzilhada e Taquari. Muitas charqueadas à margem do rio Jacuí à altura da confluência com o Taquari e um tanto além. Saint-Hilaire gostaria de ter sido convidado para uma reunião social, pois haviam louvado muito as mulheres de Rio Pardo, "com modos tão agradáveis quanto às de Montevidéu". No entanto, só pôde avaliá-las através da esposa e filhas do Sargento-Mor Figueiredo Neves, "efetivamente muito distintas e educadas".
Poderia ir por terra de Rio Pardo a Porto Alegre, mas, como seria preciso vadear os rios Taquari e Caí, preferiu vender carreta, bois e cavalos e seguir por água, servindo-se de uma das "canoas grandes" aplicadas ao transporte de mercadorias entre as duas cidades (canoas de um mastro, de 55 a 62 palmos de comprimento por até 20 de largura). Informa que eram dez os barcos habitualmente aplicados nessa linha, cada um fazendo anualmente de quinze a vinte viagens de ida e volta.
Descendo o rio Jacuí, cruzou diante da aldeia de Santo Amaro, da Freguesia Nova (Triunfo), de diversas charqueadas, da ilha do Fanfa (medindo uma légua) e da ilha Rasa (habitada). Após ter recebido o Taquari, o rio Jacuí tornou-se bem mais largo, talvez tão largo quanto o Loire diante de Orléans.
"Cruzamos com vários barcos, muito bonitos, em demanda de Rio Pardo. Tais são as embarcações de que se servem aqueles que têm pressa de ir de Porto Alegre a essa cidade. Chamam-se canoas ligeiras, para distingui-las dos barcos de transporte."


NA ZONA SUL


        Saint-Hilaire não desceu do rio Jacuí através das estâncias do rio Camaquã até a várzea do São Gonçalo. Inversamente, encontrava-se na vila de Rio Grande quando teve oportunidade de subir até àquela várzea, no iate e em companhia do empresário António José Rodrigues Chaves, português de nascimento e então com residência e charqueada nas cercanias de São Francisco de Paula.
      "A viagem foi muito agradável. O Senhor Rodrigues Chaves é um homem culto, sabendo o Latim, o Francês, com leituras de História Natural, conversa muito bem".
       "Diante da charqueada do Senhor Chaves estendem-se vá¬rias fileiras, compridas, de grossos paus fincados na terra, com varões transversais destinados a estender a carne a secar. A carne-seca não se conserva mais de um ano: é exportada principalmente para o Rio de Janeiro, Bahia e Havana, onde serve de alimento para os negros".

       "A mesa de meu hospedeiro é farta. É principalmente a carne de vaca que se apresenta em feitios variados; contudo temos pão e vinhos às refeições".
       "Esta região pertence a charqueadores, que aí recebem, sem a mínima dificuldade, o gado criado nas gordas pastagens situadas ao sul do Jacuí. Há entre eles homens muito ricos. Há atualmente dezoito charqueadas nessa paróquia, e a média de animais abatidos por ano é de cerca de vinte mil".
       "Fui hoje com o Senhor Chaves à aldeia (Pelotas), viajando em cabriole descoberto. Nada tão belo como'a região por nós atravessada. Nos pomares, na maioria muito grandes, são cultivadas laranjeiras, pessegueiros, parreiras, legumes e algumas flores".
      "A aldeia conta para mais de cem casas, construídas segundo um plano regular de edificação. As ruas são largas e retas. Não se vê uma palhoça sequer e tudo aqui anuncia abastança. Os homens que encontrei achavam-se vestidos com asseio e vi várias lojas sortidas de mercadorias diversas. Operários e principalmente negociantes constituem a população."
      "Muito significativo o seu registro a respeito dos escravos. Embora venhamos a saber, depois, que o Senhor Rodrigues Chaves era um homem perfeitamente imbuído dos ideais do liberalismo, com tendência republicana e franco adepto da abolição da escravatura, seu comportamento diante dos negros refletia a mesma insensibilidade já observada de um modo geral entre os sul-rio-grandenses".
      "Nas charqueadas os negros são tratados com rudeza. O Senhor Chaves, tido como um dos charqueadores mais humanos, só fala aos seus escravos com exagerada severidade, no que é imitado por sua mulher; os escravos parecem tremer diante de seus donos".
     "Há sempre na sala um pequeno negro de dez ou doze anos, cuja função é ir chamar os outros escravos, servir água e prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz que essa criança. Nunca se assenta, jamais sorri, em tempo algum brinca! Passa a vida tristemente encostado à parede e é frequentemente maltratado pelos filhos do dono. À noite chega-lhe o sono e, quando não há ninguém na sala, cai de joelhos para poder dormir. Não é esta casa a única que usa esse impiedoso sistema: ele é frequente em outras."
  

    Provavelmente esteja aqui localizada, no tempo e no espaço, a origem da lenda e mito do Negrinho do Pastoreio, arquétipo a que se reportam os humildes maltratados pelos poderosos. Era uma vez um estancieiro com muito campo, muito gado, uma tropilha de cavalos de pêlo tordilho, muitas onças de ouro e um filho. Tinha também um cavalo parelheiro e um negrinho escravo que, por ser de peso muito leve, é quem corria esse baio nas carreiras. Tendo perdido uma carreira, por castigo o Sinhô manda que ele vá pastorear a tropilha de cavalos tordilhos, não deixando nenhum escapar.
        O filho do Sinhô espanta a tropilha e, em meio à noite escura, o Sinhô dá o castigo do negrinho ir procurá-la. Ele pega um toco de vela no oratório da estância, sai peio campo e, à medida que os pingos da vela respingam, tornam-se outras tantas velas que atraem a tropilha. O filho do Sinhô torna a espantar a tropilha e, como último castigo, o Sinhô surra tanto o negrinho a ponto de matá-lo. Para não perder tempo, atira-o num formigueiro em vez de sepultura. No dia seguinte o Sinhô vai ver se as formigas já devoraram todo o corpo do negrinho mas tem a surpresa de vê-lo sair sãozinho, montar no parelheiro baio e subir para o céu levando a tropilha dos tordilhos. Sob a proteção de Nossa Senhora, o Negrinho do Pastoreio acha qualquer coisa que a gente tenha perdido, desde que se lhe acenda um toco de vela - Lembra Luiz Carlos Barbosa Lessa, sobre a Lenda do Negrinho do Pastoreio.


Continuamos...

segunda-feira, 23 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte III

por Rogério Bastos
@rogeriopbastos



No Litoral Norte

            Saint-Hilaire entrou pela divisa catarinense, atravessando desde Torres os chamados Campos de Viamão. O Litoral Norte é caracterizado como uma planície rasa, onde o pasto é duro e áspero, não existindo aquelas ervas finas e tenras tão úteis aos animais. A principal cultura é a mandioca, mas também existem roças de milho e feijão. Na serra de Santo António é feita a cultura de cana, havendo grandes plantações destinadas ao fabrico da aguardente. Desde logo Saint-Hilaire percebe algumas particularidades não observadas nas anteriores capitanias de Minas Gerais e São Paulo (incluindo Paraná). Assim, há muitos brancos, há negros, mas não há mulatos. As mulheres não se escondem à aproximação de estranhos. Num detalhe de observação, ele se refere ao preconceito dos cavaleiros contra o uso de éguas para montaria (chegam a valer só pataca e meia).

          Depois de ter estado em Porto Alegre, Saint-Hilaire acompanha a comitiva do Capitão-General Conde da Figueira que está se dirigindo por terra a São José do Norte/Rio Grande, e assim percorre novo trecho do Litoral Norte. Em Palmares e São Simão já não há quase árvores e o terreno é muito arenoso. A estrada é pouquíssimo frequentada, havendo percursos em que não se encontra nenhum viajante. Plantada em meio à solidão, a aldeia de Mostardas situa-se entre areias e se compõe de quarenta casas. Na lagoa do Peixe, que é próxima do mar, os moradores têm o hábito de abrir de tempos em tempos um sangradouro de comunicação com o oceano, e com isso o lago se enche de peixes que são capturados com facilidade. Os arredores são impregnados de sal, e as pastagens conferem um bom paladar à carne. A principal atividade é a criação de ovelhas. Com a lã produzida as mulheres fazem ponchos — brancos com riscas pretas ou pardas — destinados a negros e índios e vendidos à razão de 6 patacas em Porto Alegre, Rio Grande e outras localidades.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte II

O RIO GRANDE- DE SAINT- HILAIRE

por Rogério Bastos
@rogeriopbastos


A entrada, no cenário sul-rio-grandense, do genial naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, com sua argúcia na observação seja de uma planta ou de uma pessoa, praticamente torna desnecessária maior reconstituição do passado. Em seu diário ele vai anotando o presente com o calor de quem vive a História.

  Já havia três anos que ele percorria as cidades e os sertões do rio São Francisco, das Minas Gerais, da Capitania de São Paulo (inclusive Paraná) e Capitania de Santa Catarina, quando em 1820 chegou à nossa divisa do rio Mampituba. Aqui ele esteve (em duas etapas, intermediadas pelo percurso da Província Cisplatina) durante nove meses (até meados de 1821). Sofreu muito com nosso clima, ouviu o povo se referir à recente seca ("a mais prolongada de todos os tempos"), ficou ilhado por causa das incríveis enchentes, bateu queixo de frio em Porto Alegre, sofreu calorão em São Borja, viu levado pelos ares o teto sob o qual se hospedava em Restinga Seca quando veio inesperado tufão, pensou que ia morrer e só rezava um salmo da Bíblia quando o veleiro em que viajava foi subitamente envolvido pelos ventos na lagoa dos Patos. Falou com ricos, pobres, negros, índios, donos de estância, senhores comerciantes e meninos escravos — com todo mundo, enfim. Por tudo isso, sua Viagem ao Rio Grande do Sul se constitui numa insubstituível "reportagem" sobre nossa gente na antevéspera da Independência.

        Vamos remanejar trechos esparsos que estão distribuídos aqui e ali (segundo a tradução portuguesa de Leonardo de Azeredo Penha, única até hoje editada), e pretendemos com essa liberdade transmitir simplesmente melhor encadeamento dos assuntos.

Eis o Panorama Geral:

     "Esta Capitania é certamente uma das mais ricas de todo o Brasil e uma das mais bem aquinhoadas pela Natureza" — escreve Saint-Hilaire. — "Os ventos, renovando constantemente o ar, fazem com que certas moléstias, tais como as febres intermitentes, sejam aqui inteiramente desconhecidas. As moléstias mais comuns são as doenças do peito e da garganta e os reumatismos, que provêm das contínuas mudanças de temperatura”.

     "Situada à beira-mar, possui inúmeros lagos e rios que oferecem fáceis meios de transporte. Entretanto, no tocante à Lagoa dos Patos e seus canais de acesso, é verdadeiramente inconcebível que não tenha o governo, até agora, tomado medida alguma para tornar menos perigosa a navegação, que tanto contribui para a riqueza da Capitania. Há alguns pilotos que se encarregam de conduzir os barcos de Rio Grande a Porto Alegre e vice-versa, mas não são revestidos de nenhum caráter legal, e pode acontecer tomar-se algum inábil”.

      "O solo produz trigo, centeio, milho e feijão com abundância, e experiências têm provado que todas as árvores, cereais e legumes da Europa aqui produzirão facilmente se forem cultivados”.

     "Distinguem-se estâncias e chácaras. A estância é uma propriedade onde pode existir alguma cultura, porém ocupa-se principalmente da criação de gado. A chácara tem área bem menor e só se destina à agricultura".

      "As pastagens, comportando uma imensidão de gado, não exigem dos estancieiros grandes despesas com escravos, como acontece nas regiões de mineração e de indústria açucareira. Não é raro encontrar estâncias com renda de 10 a 40 mil cruzados. Como quase não há despesas a fazer, tal fortuna tende a aumentar em rápida progressão".

     "Nada mais comum aqui que o roubo de animais. É tão banal esse gênero de furto, que chega a ser visto como coisa legítima".

     "As rendas da Capitania se compõem dos direitos alfandegários, dos do registro de Santa Vitória passo do rio Pelotas na divisa com os campos de Lajes), do quinto dos couros exportados, dos dízimos, dos pedágios e travessia de rios.

     "Há sérios inconvenientes no poder absoluto até agora atribuído aos capitães-generais. Sem nenhum obstáculo podem seguir todas as suas ideias, executar todos os seus planos, por esdrúxulos que sejam, e seus subalternos nunca deixam de se extasiar diante do que eles fazem. Mas, quando um general deixa a Capitania, procuram se vingar do seu despotismo, depreciando todas suas obras. Seu sucessor abandona-as, e começa outras, que por sua vez serão um dia esquecidas".

"Segundo dados que me foram fornecidos pelo Senhor José Feliciano Fernandes Pinheiro, a Capitania tem 66.665 habitantes, sendo 32.000 brancos, 5.399 homens de cor livres, 20.611 homens de cor escravizados e 8.655 índios. Nas Missões, segundo Fernandes Pinheiro, existem 824 brancos e 6.395 índios; mas, pelo relatório dos administradores daquela província, a população não vai além de 3.000 guaranis-portugueses.

     "Os habitantes passam a vida, por assim dizer, a cavalo, e frequentemente locomovem-se a grandes distâncias com rapidez suposta além das possibilidades humanas. A maioria deles é originária de Açores, tal como os da Capitania de Santa Catarina. Todavia, uns e outros pouco se assemelham. Os daqui são corpulentos, os outros são magros e pequenos. Os daqui são corados, têm maior vivacidade de modos, os dali têm tez amarelada. Tais diferenças provêm naturalmente de seus regimes e hábitos. Os daqui vivem continuamente a cavalo, fazendo exercícios e respirando o ar mais puro e sadio da terra; os catarinenses vivem quase sempre da pesca ou do trabalho da terra. Os desta Capitania comem carne, e algumas vezes pão, e os segundos alimentam-se quase somente de peixe e farinha de mandioca".

      "Os brasileiros são em geral prestimosos e generosos, mas o hábito de castigar os escravos embota-lhes a sensibilidade. Nesta Capitania acresce uma outra modalidade da dureza de coração. Vivem, por assim dizer, no meio de matadouros; o sangue dos animais corre sem cessar, ao redor deles e desde a infância se acostumam ao espetáculo da morte e dos sofrimentos. Não é pois de estranhar sejam mais insensíveis que o resto dos seus compatriotas. Fala-se aqui da desgraça alheia com o mais inalterável sangue-frio".

     "Há muita suscetibilidade no aspecto de defesa do território doméstico. Nas Missões, fui muito mal recebido pelo estancieiro Padre Alexandre porque não cumpri certas formalidades à chegada. Quase sempre eu andava à frente meu criado Matias para pedir pousada, mas também entre Cachoeira e Rio Pardo me apresentei sozinho e meu hospedeiro censurou-me acremente por eu ter, à chegada, atravessado a cerca que separava o campo e o pátio. 'Nem um homem mal-educado procederia assim — disse-me —; devíeis ter ficado fora, chamando-me e esperando que eu respondesse: Respondi que não tinha intenção de ofendê-lo e consegui abrandá-lo um pouco, apesar de continuar muito frio".

      "Observo frequentemente em minhas viagens como a influencia do clima é poderosa sobre os seres vivos. Na zona tórrida os cães latem menos, são tímidos e fogem à mais insignificante ameaça. Ao contrário, nesta Capitania eles latem muito e frequentemente perseguem os transeuntes com audácia e animosidade".



quinta-feira, 12 de março de 2020

Rogério Bastos comenta sobre os 200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS


              Mais uma vez demorei pra aparecer por aqui, em função das atividades de rotina. Porém, sempre que houver conteúdo importante, atentarei às postagens, prometo! Acompanhem os próximos posts, com textos enviados pelo nosso colaborador Rogério Bastos!

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte I
Auguste de Saint Hilaire – Os 200 anos da chegada ao Rio Grande do Sul  do mais brasileiro dos naturalistas europeus
por Rogério Bastos
@rogeriopbastos

 Desde a chegada, da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, o Brasil teve seu território aberto à visitação de naturalistas das mais diversas nacionalidades, que para cá se deslocavam em busca de descobertas sobre um território desconhecido e promissor, tanto sob o ponto científico quanto econômico.

         Auguste François César Prouvansal de Saint-Hilaire nasceu em Orleans, na França, em 4 de outubro de 1779, filho de Augustin François Prouvansal de Saint-Hilaire (1745-1835) e de Anne Antoinette Jogues de Guédreville et Poinvillé (1755-1842). Oriundo de família nobre, fez seus primeiros estudos no Colégio Real Militar de Pontlevez, dirigido pelos beneditinos. Depois da Revolução Francesa, foi enviado para a casa de um tio na Holanda, onde estudou comércio. Voltou à terra natal em 1802, dirigindo-se para Paris, passando a estudar botânica no Museu de Ciências Naturais .

        A convite do duque de Luxemburgo, então embaixador extraordinário da França junto à corte portuguesa, partiu do porto de Brest para o Brasil em companhia do diplomata seu protetor, em 1º de abril de 1816, a bordo da fragata Hermonione, desembarcando no Rio de Janeiro, em 1º de junho daquele ano.

        Ao chegar já iniciou suas incursões pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do território da Cisplatina (Paraguai e Argentina). Percorreu cerca de 2,5 mil léguas (aproximadamente, 12,5 mil quilômetros), formando um herbário de 30 mil espécimes de mais de 7 mil espécies, das quais cerca de 4,5 mil eram desconhecidas dos cientistas à época.

        Saint-Hilaire encaminhou à Europa amostras de minérios, 129 espécimes de mamíferos (48 espécies), 2.005 aves (451 espécies), 35 espécimes de répteis (21 espécies), 58 peixes (21 espécies), algumas conchas e cerca de 16 mil insetos, dos quais 800 ainda não eram conhecidos.

        Poucos investigadores estrangeiros, dentre os muitos que nos visitaram com propósitos científicos, se mostram tão compreensivos e cordiais a nosso respeito. Ninguém mais atento do que ele no empenho de desvendar aos olhos da Europa a ecologia dessa parte do mundo.

         O resultado que ele obteve não se limitou, porém, a coleta, classificação e preservação do material encontrado. À medida que o examinava, Saint-Hilaire redigia comunicações, relatos de viagem e permutava informações com botânicos e instituições diversas; tratava, em suma, de tornar conhecida a opulência da natureza brasileira, imperfeitamente conhecida, naquela época, inclusive por nós mesmos.

        Viagem ao Rio Grande do Sul, enquanto relato de excursão científica, poderia ter ficado restrito à botânica, principal objetivo do viajante. Para quem redigia tal documento, nas pausas de desconfortável visita a sítios agrestes, ermos e ignorados, o texto ora impresso era um subproduto, em face da primaria dada por Saint-Hilaire ao seu herbário, que levava consigo como o maior tesouro por ele descoberto no Novo Mundo. Entretanto, nos dias de hoje, para todos nós, a Viagem é que é o documento vivo. Quer dizer quanto mais o tempo transcorra, mais valiosas serão suas páginas, vivificadas pela abrangência de um espírito observador.