quinta-feira, 26 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial


por Rogério Bastos
@rogeriopbastos

NA REGIÃO  METROPOLITANA
O arraial de Viamão, mais conhecido pelo nome de Capela, entrou em quase completo abandono desde a fundação de Porto Alegre, melhor situada sob o ponto de vista comercial. No entanto, desde a cidade de São Paulo Saint-Hilaire não havia encontrado uma igreja comparável à da localidade, bem conservada, extremamente asseada e ornamentada com bom gosto.
As imediações de Porto Alegre fazem-no lembrar o sul da Europa e tudo quanto ele tem de mais encantador. A cidade, situada em agradável posição numa pequena península formada por uma colina que se projeta sobre o Guaíba, conta com uma população de dez a doze mil almas. O porto dá calado para sumacas, brigues e galeras de três mastros. Ele conta cerca de trinta embarcações atracadas, mas o informam de que frequentemente esse número se eleva a cinquenta. A rua da Praia, comercial, é muito movimentada, com gente a pé e a cavalo, marinheiros e muitos negros carregando volumes diversos. Próximo ao cais fica o mercado, em que se vendem laranjas, amendoim, carne-seca, lenha, hortaliças e, nessa época do ano, pinhões. Mais uma vez Saint-Hilaire comenta que aqui as mulheres não se escondem, e acrescenta que, embora não havendo tanta vida social como nas cidades europeias (não há nenhum clube), não resta dúvida haver muito mais que nas outras cidades do Brasil. Vai a um pequeno baile, em residência particular, onde depara com cerca de quarenta pessoas entre homens e mulheres:
"Ainda não tinha visto no Brasil uma reunião semelhante. No interior as mulheres se escondem e não passam de primeiras escravas da casa, ao passo que os homens não têm mínima Ideia dos prazeres que se podem usufruir decentemente. Aqui, dançaram-se valsas, contradanças e bailados espanhóis, algumas senhoras tocaram piano, outras cantaram com muita arte acompanhadas ao bandolim, e a festa terminou com pequenos jogos de salão. Encontrei modos distintos em todos. As senhoras falam desembaraçadamente com os homens, e estes cercam-nas de gentileza — sem contudo demonstrarem empenho de agradar, qualidade esta quase exclusiva do francês”.





NA REGIÃO CENTRAL
Saint-Hilaire, com sua carreta e seus criados, vinha da região das Missões e foi consequentemente pelo oeste — pela íngreme serra de São Martinho — que entrou na Região Central. Em Toropi-Grande encontra um velho índio que sabe ler e escrever, fala bem o Português, anda bem vestido, é muito honrado, goza de certa abastança, possui uma estância, cavalos e gado, conduz seus negócios com método e casou suas filhas com homens brancos. (Debret também registraria em aquarela um desses estancieiros índios.)
O Acampamento de Santa Maria, habitado por comerciantes que fornecem fumo, aguardente e outras mercadorias, conta com cerca de trinta casas e com uma capela dependente da paróquia de São João da Cachoeira.
Cachoeira é, efetivamente, a primeira povoação que se encontra na estrada que vem das Missões. A essa altura Saint-Hilaire se dá conta de que vinha concluindo uma viagem de quase 600 léguas por uma região sulcada de rios e, inacreditavelmente, não encontrara sequer uma ponte.
A vila de Rio Pardo é inteiramente nova, tendo sido substituídas as irregulares palhoças que de início haviam caracterizado a localidade. Várias casas grandes e bem construídas, sacadas envidraçadas, a rua principal com largo trecho calçado. Produtos agrícolas fornecidos pelas freguesias de Encruzilhada e Taquari. Muitas charqueadas à margem do rio Jacuí à altura da confluência com o Taquari e um tanto além. Saint-Hilaire gostaria de ter sido convidado para uma reunião social, pois haviam louvado muito as mulheres de Rio Pardo, "com modos tão agradáveis quanto às de Montevidéu". No entanto, só pôde avaliá-las através da esposa e filhas do Sargento-Mor Figueiredo Neves, "efetivamente muito distintas e educadas".
Poderia ir por terra de Rio Pardo a Porto Alegre, mas, como seria preciso vadear os rios Taquari e Caí, preferiu vender carreta, bois e cavalos e seguir por água, servindo-se de uma das "canoas grandes" aplicadas ao transporte de mercadorias entre as duas cidades (canoas de um mastro, de 55 a 62 palmos de comprimento por até 20 de largura). Informa que eram dez os barcos habitualmente aplicados nessa linha, cada um fazendo anualmente de quinze a vinte viagens de ida e volta.
Descendo o rio Jacuí, cruzou diante da aldeia de Santo Amaro, da Freguesia Nova (Triunfo), de diversas charqueadas, da ilha do Fanfa (medindo uma légua) e da ilha Rasa (habitada). Após ter recebido o Taquari, o rio Jacuí tornou-se bem mais largo, talvez tão largo quanto o Loire diante de Orléans.
"Cruzamos com vários barcos, muito bonitos, em demanda de Rio Pardo. Tais são as embarcações de que se servem aqueles que têm pressa de ir de Porto Alegre a essa cidade. Chamam-se canoas ligeiras, para distingui-las dos barcos de transporte."


NA ZONA SUL


        Saint-Hilaire não desceu do rio Jacuí através das estâncias do rio Camaquã até a várzea do São Gonçalo. Inversamente, encontrava-se na vila de Rio Grande quando teve oportunidade de subir até àquela várzea, no iate e em companhia do empresário António José Rodrigues Chaves, português de nascimento e então com residência e charqueada nas cercanias de São Francisco de Paula.
      "A viagem foi muito agradável. O Senhor Rodrigues Chaves é um homem culto, sabendo o Latim, o Francês, com leituras de História Natural, conversa muito bem".
       "Diante da charqueada do Senhor Chaves estendem-se vá¬rias fileiras, compridas, de grossos paus fincados na terra, com varões transversais destinados a estender a carne a secar. A carne-seca não se conserva mais de um ano: é exportada principalmente para o Rio de Janeiro, Bahia e Havana, onde serve de alimento para os negros".

       "A mesa de meu hospedeiro é farta. É principalmente a carne de vaca que se apresenta em feitios variados; contudo temos pão e vinhos às refeições".
       "Esta região pertence a charqueadores, que aí recebem, sem a mínima dificuldade, o gado criado nas gordas pastagens situadas ao sul do Jacuí. Há entre eles homens muito ricos. Há atualmente dezoito charqueadas nessa paróquia, e a média de animais abatidos por ano é de cerca de vinte mil".
       "Fui hoje com o Senhor Chaves à aldeia (Pelotas), viajando em cabriole descoberto. Nada tão belo como'a região por nós atravessada. Nos pomares, na maioria muito grandes, são cultivadas laranjeiras, pessegueiros, parreiras, legumes e algumas flores".
      "A aldeia conta para mais de cem casas, construídas segundo um plano regular de edificação. As ruas são largas e retas. Não se vê uma palhoça sequer e tudo aqui anuncia abastança. Os homens que encontrei achavam-se vestidos com asseio e vi várias lojas sortidas de mercadorias diversas. Operários e principalmente negociantes constituem a população."
      "Muito significativo o seu registro a respeito dos escravos. Embora venhamos a saber, depois, que o Senhor Rodrigues Chaves era um homem perfeitamente imbuído dos ideais do liberalismo, com tendência republicana e franco adepto da abolição da escravatura, seu comportamento diante dos negros refletia a mesma insensibilidade já observada de um modo geral entre os sul-rio-grandenses".
      "Nas charqueadas os negros são tratados com rudeza. O Senhor Chaves, tido como um dos charqueadores mais humanos, só fala aos seus escravos com exagerada severidade, no que é imitado por sua mulher; os escravos parecem tremer diante de seus donos".
     "Há sempre na sala um pequeno negro de dez ou doze anos, cuja função é ir chamar os outros escravos, servir água e prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz que essa criança. Nunca se assenta, jamais sorri, em tempo algum brinca! Passa a vida tristemente encostado à parede e é frequentemente maltratado pelos filhos do dono. À noite chega-lhe o sono e, quando não há ninguém na sala, cai de joelhos para poder dormir. Não é esta casa a única que usa esse impiedoso sistema: ele é frequente em outras."
  

    Provavelmente esteja aqui localizada, no tempo e no espaço, a origem da lenda e mito do Negrinho do Pastoreio, arquétipo a que se reportam os humildes maltratados pelos poderosos. Era uma vez um estancieiro com muito campo, muito gado, uma tropilha de cavalos de pêlo tordilho, muitas onças de ouro e um filho. Tinha também um cavalo parelheiro e um negrinho escravo que, por ser de peso muito leve, é quem corria esse baio nas carreiras. Tendo perdido uma carreira, por castigo o Sinhô manda que ele vá pastorear a tropilha de cavalos tordilhos, não deixando nenhum escapar.
        O filho do Sinhô espanta a tropilha e, em meio à noite escura, o Sinhô dá o castigo do negrinho ir procurá-la. Ele pega um toco de vela no oratório da estância, sai peio campo e, à medida que os pingos da vela respingam, tornam-se outras tantas velas que atraem a tropilha. O filho do Sinhô torna a espantar a tropilha e, como último castigo, o Sinhô surra tanto o negrinho a ponto de matá-lo. Para não perder tempo, atira-o num formigueiro em vez de sepultura. No dia seguinte o Sinhô vai ver se as formigas já devoraram todo o corpo do negrinho mas tem a surpresa de vê-lo sair sãozinho, montar no parelheiro baio e subir para o céu levando a tropilha dos tordilhos. Sob a proteção de Nossa Senhora, o Negrinho do Pastoreio acha qualquer coisa que a gente tenha perdido, desde que se lhe acenda um toco de vela - Lembra Luiz Carlos Barbosa Lessa, sobre a Lenda do Negrinho do Pastoreio.


Continuamos...

segunda-feira, 23 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte III

por Rogério Bastos
@rogeriopbastos



No Litoral Norte

            Saint-Hilaire entrou pela divisa catarinense, atravessando desde Torres os chamados Campos de Viamão. O Litoral Norte é caracterizado como uma planície rasa, onde o pasto é duro e áspero, não existindo aquelas ervas finas e tenras tão úteis aos animais. A principal cultura é a mandioca, mas também existem roças de milho e feijão. Na serra de Santo António é feita a cultura de cana, havendo grandes plantações destinadas ao fabrico da aguardente. Desde logo Saint-Hilaire percebe algumas particularidades não observadas nas anteriores capitanias de Minas Gerais e São Paulo (incluindo Paraná). Assim, há muitos brancos, há negros, mas não há mulatos. As mulheres não se escondem à aproximação de estranhos. Num detalhe de observação, ele se refere ao preconceito dos cavaleiros contra o uso de éguas para montaria (chegam a valer só pataca e meia).

          Depois de ter estado em Porto Alegre, Saint-Hilaire acompanha a comitiva do Capitão-General Conde da Figueira que está se dirigindo por terra a São José do Norte/Rio Grande, e assim percorre novo trecho do Litoral Norte. Em Palmares e São Simão já não há quase árvores e o terreno é muito arenoso. A estrada é pouquíssimo frequentada, havendo percursos em que não se encontra nenhum viajante. Plantada em meio à solidão, a aldeia de Mostardas situa-se entre areias e se compõe de quarenta casas. Na lagoa do Peixe, que é próxima do mar, os moradores têm o hábito de abrir de tempos em tempos um sangradouro de comunicação com o oceano, e com isso o lago se enche de peixes que são capturados com facilidade. Os arredores são impregnados de sal, e as pastagens conferem um bom paladar à carne. A principal atividade é a criação de ovelhas. Com a lã produzida as mulheres fazem ponchos — brancos com riscas pretas ou pardas — destinados a negros e índios e vendidos à razão de 6 patacas em Porto Alegre, Rio Grande e outras localidades.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte II

O RIO GRANDE- DE SAINT- HILAIRE

por Rogério Bastos
@rogeriopbastos


A entrada, no cenário sul-rio-grandense, do genial naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, com sua argúcia na observação seja de uma planta ou de uma pessoa, praticamente torna desnecessária maior reconstituição do passado. Em seu diário ele vai anotando o presente com o calor de quem vive a História.

  Já havia três anos que ele percorria as cidades e os sertões do rio São Francisco, das Minas Gerais, da Capitania de São Paulo (inclusive Paraná) e Capitania de Santa Catarina, quando em 1820 chegou à nossa divisa do rio Mampituba. Aqui ele esteve (em duas etapas, intermediadas pelo percurso da Província Cisplatina) durante nove meses (até meados de 1821). Sofreu muito com nosso clima, ouviu o povo se referir à recente seca ("a mais prolongada de todos os tempos"), ficou ilhado por causa das incríveis enchentes, bateu queixo de frio em Porto Alegre, sofreu calorão em São Borja, viu levado pelos ares o teto sob o qual se hospedava em Restinga Seca quando veio inesperado tufão, pensou que ia morrer e só rezava um salmo da Bíblia quando o veleiro em que viajava foi subitamente envolvido pelos ventos na lagoa dos Patos. Falou com ricos, pobres, negros, índios, donos de estância, senhores comerciantes e meninos escravos — com todo mundo, enfim. Por tudo isso, sua Viagem ao Rio Grande do Sul se constitui numa insubstituível "reportagem" sobre nossa gente na antevéspera da Independência.

        Vamos remanejar trechos esparsos que estão distribuídos aqui e ali (segundo a tradução portuguesa de Leonardo de Azeredo Penha, única até hoje editada), e pretendemos com essa liberdade transmitir simplesmente melhor encadeamento dos assuntos.

Eis o Panorama Geral:

     "Esta Capitania é certamente uma das mais ricas de todo o Brasil e uma das mais bem aquinhoadas pela Natureza" — escreve Saint-Hilaire. — "Os ventos, renovando constantemente o ar, fazem com que certas moléstias, tais como as febres intermitentes, sejam aqui inteiramente desconhecidas. As moléstias mais comuns são as doenças do peito e da garganta e os reumatismos, que provêm das contínuas mudanças de temperatura”.

     "Situada à beira-mar, possui inúmeros lagos e rios que oferecem fáceis meios de transporte. Entretanto, no tocante à Lagoa dos Patos e seus canais de acesso, é verdadeiramente inconcebível que não tenha o governo, até agora, tomado medida alguma para tornar menos perigosa a navegação, que tanto contribui para a riqueza da Capitania. Há alguns pilotos que se encarregam de conduzir os barcos de Rio Grande a Porto Alegre e vice-versa, mas não são revestidos de nenhum caráter legal, e pode acontecer tomar-se algum inábil”.

      "O solo produz trigo, centeio, milho e feijão com abundância, e experiências têm provado que todas as árvores, cereais e legumes da Europa aqui produzirão facilmente se forem cultivados”.

     "Distinguem-se estâncias e chácaras. A estância é uma propriedade onde pode existir alguma cultura, porém ocupa-se principalmente da criação de gado. A chácara tem área bem menor e só se destina à agricultura".

      "As pastagens, comportando uma imensidão de gado, não exigem dos estancieiros grandes despesas com escravos, como acontece nas regiões de mineração e de indústria açucareira. Não é raro encontrar estâncias com renda de 10 a 40 mil cruzados. Como quase não há despesas a fazer, tal fortuna tende a aumentar em rápida progressão".

     "Nada mais comum aqui que o roubo de animais. É tão banal esse gênero de furto, que chega a ser visto como coisa legítima".

     "As rendas da Capitania se compõem dos direitos alfandegários, dos do registro de Santa Vitória passo do rio Pelotas na divisa com os campos de Lajes), do quinto dos couros exportados, dos dízimos, dos pedágios e travessia de rios.

     "Há sérios inconvenientes no poder absoluto até agora atribuído aos capitães-generais. Sem nenhum obstáculo podem seguir todas as suas ideias, executar todos os seus planos, por esdrúxulos que sejam, e seus subalternos nunca deixam de se extasiar diante do que eles fazem. Mas, quando um general deixa a Capitania, procuram se vingar do seu despotismo, depreciando todas suas obras. Seu sucessor abandona-as, e começa outras, que por sua vez serão um dia esquecidas".

"Segundo dados que me foram fornecidos pelo Senhor José Feliciano Fernandes Pinheiro, a Capitania tem 66.665 habitantes, sendo 32.000 brancos, 5.399 homens de cor livres, 20.611 homens de cor escravizados e 8.655 índios. Nas Missões, segundo Fernandes Pinheiro, existem 824 brancos e 6.395 índios; mas, pelo relatório dos administradores daquela província, a população não vai além de 3.000 guaranis-portugueses.

     "Os habitantes passam a vida, por assim dizer, a cavalo, e frequentemente locomovem-se a grandes distâncias com rapidez suposta além das possibilidades humanas. A maioria deles é originária de Açores, tal como os da Capitania de Santa Catarina. Todavia, uns e outros pouco se assemelham. Os daqui são corpulentos, os outros são magros e pequenos. Os daqui são corados, têm maior vivacidade de modos, os dali têm tez amarelada. Tais diferenças provêm naturalmente de seus regimes e hábitos. Os daqui vivem continuamente a cavalo, fazendo exercícios e respirando o ar mais puro e sadio da terra; os catarinenses vivem quase sempre da pesca ou do trabalho da terra. Os desta Capitania comem carne, e algumas vezes pão, e os segundos alimentam-se quase somente de peixe e farinha de mandioca".

      "Os brasileiros são em geral prestimosos e generosos, mas o hábito de castigar os escravos embota-lhes a sensibilidade. Nesta Capitania acresce uma outra modalidade da dureza de coração. Vivem, por assim dizer, no meio de matadouros; o sangue dos animais corre sem cessar, ao redor deles e desde a infância se acostumam ao espetáculo da morte e dos sofrimentos. Não é pois de estranhar sejam mais insensíveis que o resto dos seus compatriotas. Fala-se aqui da desgraça alheia com o mais inalterável sangue-frio".

     "Há muita suscetibilidade no aspecto de defesa do território doméstico. Nas Missões, fui muito mal recebido pelo estancieiro Padre Alexandre porque não cumpri certas formalidades à chegada. Quase sempre eu andava à frente meu criado Matias para pedir pousada, mas também entre Cachoeira e Rio Pardo me apresentei sozinho e meu hospedeiro censurou-me acremente por eu ter, à chegada, atravessado a cerca que separava o campo e o pátio. 'Nem um homem mal-educado procederia assim — disse-me —; devíeis ter ficado fora, chamando-me e esperando que eu respondesse: Respondi que não tinha intenção de ofendê-lo e consegui abrandá-lo um pouco, apesar de continuar muito frio".

      "Observo frequentemente em minhas viagens como a influencia do clima é poderosa sobre os seres vivos. Na zona tórrida os cães latem menos, são tímidos e fogem à mais insignificante ameaça. Ao contrário, nesta Capitania eles latem muito e frequentemente perseguem os transeuntes com audácia e animosidade".



quinta-feira, 12 de março de 2020

Rogério Bastos comenta sobre os 200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS


              Mais uma vez demorei pra aparecer por aqui, em função das atividades de rotina. Porém, sempre que houver conteúdo importante, atentarei às postagens, prometo! Acompanhem os próximos posts, com textos enviados pelo nosso colaborador Rogério Bastos!

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte I
Auguste de Saint Hilaire – Os 200 anos da chegada ao Rio Grande do Sul  do mais brasileiro dos naturalistas europeus
por Rogério Bastos
@rogeriopbastos

 Desde a chegada, da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, o Brasil teve seu território aberto à visitação de naturalistas das mais diversas nacionalidades, que para cá se deslocavam em busca de descobertas sobre um território desconhecido e promissor, tanto sob o ponto científico quanto econômico.

         Auguste François César Prouvansal de Saint-Hilaire nasceu em Orleans, na França, em 4 de outubro de 1779, filho de Augustin François Prouvansal de Saint-Hilaire (1745-1835) e de Anne Antoinette Jogues de Guédreville et Poinvillé (1755-1842). Oriundo de família nobre, fez seus primeiros estudos no Colégio Real Militar de Pontlevez, dirigido pelos beneditinos. Depois da Revolução Francesa, foi enviado para a casa de um tio na Holanda, onde estudou comércio. Voltou à terra natal em 1802, dirigindo-se para Paris, passando a estudar botânica no Museu de Ciências Naturais .

        A convite do duque de Luxemburgo, então embaixador extraordinário da França junto à corte portuguesa, partiu do porto de Brest para o Brasil em companhia do diplomata seu protetor, em 1º de abril de 1816, a bordo da fragata Hermonione, desembarcando no Rio de Janeiro, em 1º de junho daquele ano.

        Ao chegar já iniciou suas incursões pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do território da Cisplatina (Paraguai e Argentina). Percorreu cerca de 2,5 mil léguas (aproximadamente, 12,5 mil quilômetros), formando um herbário de 30 mil espécimes de mais de 7 mil espécies, das quais cerca de 4,5 mil eram desconhecidas dos cientistas à época.

        Saint-Hilaire encaminhou à Europa amostras de minérios, 129 espécimes de mamíferos (48 espécies), 2.005 aves (451 espécies), 35 espécimes de répteis (21 espécies), 58 peixes (21 espécies), algumas conchas e cerca de 16 mil insetos, dos quais 800 ainda não eram conhecidos.

        Poucos investigadores estrangeiros, dentre os muitos que nos visitaram com propósitos científicos, se mostram tão compreensivos e cordiais a nosso respeito. Ninguém mais atento do que ele no empenho de desvendar aos olhos da Europa a ecologia dessa parte do mundo.

         O resultado que ele obteve não se limitou, porém, a coleta, classificação e preservação do material encontrado. À medida que o examinava, Saint-Hilaire redigia comunicações, relatos de viagem e permutava informações com botânicos e instituições diversas; tratava, em suma, de tornar conhecida a opulência da natureza brasileira, imperfeitamente conhecida, naquela época, inclusive por nós mesmos.

        Viagem ao Rio Grande do Sul, enquanto relato de excursão científica, poderia ter ficado restrito à botânica, principal objetivo do viajante. Para quem redigia tal documento, nas pausas de desconfortável visita a sítios agrestes, ermos e ignorados, o texto ora impresso era um subproduto, em face da primaria dada por Saint-Hilaire ao seu herbário, que levava consigo como o maior tesouro por ele descoberto no Novo Mundo. Entretanto, nos dias de hoje, para todos nós, a Viagem é que é o documento vivo. Quer dizer quanto mais o tempo transcorra, mais valiosas serão suas páginas, vivificadas pela abrangência de um espírito observador.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2020


Como prometi, nesse mês estarei apresentando alguns dos novos colaboradores da nossa Confraria. 
Hoje apresento-lhes a Renata, conhecida de grande parte dos nossos leitores, que estará contribuindo com o nosso conteúdo. 
Não esqueçam de compartilhar, quando gostarem! 


Diversidade e a pluralidade cultural

por Renata da Silva
@prendars_

        Estou beirando a casa dos 30 anos e aprendi, só agora, sobre diversidade cultural.
Ser tradicionalista desde a tenra idade me levou por um caminho maravilhoso, repleto de experiências e conhecimentos que me fizeram desenvolver como ser humano e descobrir muitas aptidões.
        No entanto, esse mesmo caminho me alienou. E, no Rio Grande, isso não é difícil de acontecer, porque adotar a ideologia do “gaúcho raiz” vai te levar, inevitavelmente, para dentro de um galpão de CTG. E, dentro do CTG, para as regras do MTG.
    Isso é ruim? Não. Pelo menos para mim nunca foi. Devo minha maturidade pessoal e vida profissional atual às oportunidades que o Movimento Tradicionalista Gaúcho me proporcionou.
      Além de ter sido prenda de faixa desde a categoria simpatia na entidade, fui também 1ª Prenda da 30ª RT nas três categorias, e ainda 1ª Prenda do Rio Grande do Sul nas categorias mirim e adulta. 
      Hoje, sou Coordenadora de Cultura do município de Campo Bom. E essa função está diretamente ligada ao trabalho executado no parágrafo acima.
      Mas assim como o mundo mudou, eu mudei e o tradicionalismo também tem mudado. E hoje, mais do que nunca, é preciso entender a diversidade e a pluralidade cultural do nosso povo. Essa compreensão, ou talvez a simples busca por ela, garantirão que os Centros de Tradições Gaúchas e os seus frequentadores cumpram com as ambições sociais e cívicas que o movimento sempre carregou, para não dizer as culturais.
       Por isso hoje me coloco a disposição dessa confraria com o intuito único de colaborar com ideias e pensamentos voltados às questões culturais que me fizeram permanecer nesse caminho que conheci aos 5 anos de idade, e o qual sigo defendendo.


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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

VOLTAMOS!

Boa tarde, pessoal!

Nos próximos dias estarei apresentando alguns dos novos colaboradores da nossa Confraria. 
Hoje apresento-lhes a Lívia, que estará contribuindo com o nosso conteúdo. 
Não esqueçam de compartilhar, quando gostarem! 




A teia

por Lívia Monteiro
@llmonteiro

Certa vez, durante um dos meus projetos como prenda, me questionaram sobre o que era cultura, uma pergunta fácil para quem respira tradição não acham? Mas naquela situação, quem falava comigo era uma criança entre seus dez anos de idade. A pergunta que eu buscava resposta era como explicar, de forma rápida e simples, a sua importância, para alguém que certamente levaria a minha explicação como base sobre o que era cultura para o resto da sua vida.
Como estudante de jornalismo, uma das maiores dificuldades em que nos deparamos como comunicador é saber moldar a nossa fala. Por incrível que possa parecer, a tarefa mais difícil que nos deparamos em nosso dia a dia é desconstruir todo vocábulo pomposo, adquirido pelos livros, à simplicidade do outro. Cultura, portanto, explicado para aquela criança, foi uma teia de aranha.
        Cada um de nós tem a sua teia, que nasce como nós, pequena, e ao longo do tempo vai crescendo através de fios que se ligam e se sustentam, formando quem somos. Mas ao longo das nossas trajetórias, em que mudamos a todo momento e transformamos as nossas características em novas características, as nossas teias se misturam com as teias de outras pessoas, formando assim a teia de um povo, com hábitos e costumes e que, ao serem passados de geração em geração, torna-se única.
        Já nesse momento da conversa a explicação sobre o que era uma tradição surgiu de forma natural. A nossa teia, bem como a teia de um povo, precisa de uma proteção, pois se perdermos os fios que se conectaram no decorrer das nossas vidas, como poderemos saber quem realmente somos? Como saberemos da onde viemos e para onde iremos? Pois bem, todos nós precisamos de uma aranha. Para um povo, essa aranha pode ser reconhecida como tradicionalismo. Algo que está sempre em movimento, resgatando fios que se rompem, tecendo novos fios a partir de novas teias que entram nessa mistura de histórias e que se ligam e se desligam a todo tempo. A aranha, nesse caso, é muito mais que uma proteção, é a mãe que não deixa seu filho morrer de fome.
          Eu, que ainda não me apresentei, trago essa analogia que vivi sobre a aranha e sua teia, por que acredito que assim como a criança que me questionou, crianças já crescidas ainda não tiveram alguém que explicasse de forma simples, até mesmo boba, o que era cultura.
         Cultura é o que nos define e nos liga. Uma nação que não tem cultura, não possui identidade. E isso implica em diversos processos para o desenvolvimento de um povo, país, ou seja lá o que a definição dessa teia possa ser. Mexe com a formação social, dividida entre a educação, as ciências, as filosofias, as artes e o civismo de uma localidade. Cultura é a forma mais pura de cidadania e devemos entender isso, de forma rápida e simples, pois nesse momento de caos, nosso povo precisa.
        Antes que eu me esqueça, olá, sou Lívia Monteiro, tenho 20 anos e faço jornalismo, seja ele na faculdade ou em toda vez que respiro e começo hoje a fazer parte da Confraria de Cultura, escrevendo pautas que a vida se encarrega em me dar. Espero que gostem. Um abraço.
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sexta-feira, 12 de julho de 2019

Rio Negro - Onde encontrei meu amor

Nesse domingo (14) ocorrerá o lançamento do livro Rio Negro - Onde encontrei meu amor, um romance espírita que passa por volta de 1876, no Rio Grande do Sul, escrito por Roberta Verdi. 

Acompanhando o lançamento da obra será apresentado o Musical Rio Negro, do Pampa à Paris,interpretado por Roberta Verdi, Eduardo Verdi e Lucas Gross.
         
Um encontro com música e literatura enaltecendo a cultura do Rio Grande do Sul, não percam!

Data: 14/07/2019
Hora; 19:00h
Local: Palacete Pedro Osório - Bagé/RS